Ambev destina R$7,3 bi em dividendos extraordinários e frustra expectativas
O Conselho de Administração da Ambev aprovou a distribuição adicional de R$ 7,3 bilhões em dividendos (R$ 0,4612/ação) e R$ 4,2 bilhões em juros sobre capital próprio (R$ 0,2690/ação antes de impostos). Considerando os R$ 6 bilhões já pagos em dividendos trimestrais e o programa de recompra de ações de R$ 2,5 bilhões lançado em outubro, o retorno total ao acionista com base nos resultados de 2025 deve alcançar R$ 20 bilhões, o que equivale a um payout de 130% do lucro líquido estimado (ou 144% do lucro ajustado) e um yield total próximo de 9%.
Análise do Bradesco BBI
O Bradesco BBI reconhece o montante expressivo, mas afirma que o adicional de 5,4% ficou abaixo das projeções mais otimistas do mercado para uma distribuição extraordinária mais agressiva. A equipe reforça que a decisão reflete uma postura de alocação de capital prudente, diante de um caixa líquido robusto de R$ 16,9 bilhões no 3º trimestre de 2025 e do elevado custo de capital no Brasil.
O banco cita quatro argumentos para evitar maior alavancagem: captação de dívida em larga escala seria ineficiente; benefício fiscal seria limitado devido ao uso de créditos tributários; pouco ganho em antecipar dividendos antes da tributação; e custo de capital elevado frente à exposição global da ABI. Contudo, a falta de uma política de dividendos clara e a sinalização de que não haverá mudança estrutural reduzem a previsibilidade de novas distribuições extraordinárias. Além disso, o setor enfrenta uma indústria de cerveja mais fraca, pressão concorrencial e custos em alta.
Com as ações da Ambev negociando a 14,3 vezes o P/L projetado para 2026 — um prêmio de 19% sobre pares globais — o BBI mantém recomendação neutra.
Visão do Goldman Sachs
O Goldman Sachs também considera o retorno relevante, mas abaixo das expectativas mais amplas do mercado. O banco observou que o anúncio representa uma distribuição bruta de fim de ano de R$ 11,4 bilhões, inferior ao intervalo esperado de R$ 10 bilhões a R$ 35 bilhões, mas acima de sua previsão de R$ 9,2 bilhões. Segundo o Goldman, o balanço da Ambev ainda comportaria até R$ 31,9 bilhões em pagamentos adicionais no futuro.
Os analistas do banco destacam que essa é a segunda vez consecutiva em que expectativas de reestruturação via dividendos, recompra de ações ou aquisições são frustradas. Embora reconheçam mérito na estratégia diante de juros altos por mais tempo no Brasil, afirmam que as recentes mudanças nas regras de juros sobre capital próprio e no imposto de renda criaram discordância entre a urgência dos investidores e a cautela da administração.
Com recomendação de venda, o Goldman Sachs avalia que a distribuição menor reforça as dificuldades estruturais para 2026: mercado saturado, competição intensa, custos em elevação, novas preferências de consumo e erosão de valor de marca, obrigando a companhia a escolher entre crescimento e rentabilidade.